6. GERAL 19.9.12

1. IDEIAS  SE O MAL  BANAL, O BANAL SER MAU?
2. GENTE
3. CINCIA  O DNA NO PODE TUDO
4. SEXO  UM PONTAP NO SENSO COMUM
5. TECNOLOGIA  EVOLUO SEM REVOLUO
6. EDUCAO  E A CONTA NO FECHOU
7. VIDA DIGITAL  O GENE DA WEB
8. SADE  BERREIRO LIBERADO
9. COMPORTAMENTO  A HORA DO ARREPENDIMENTO
10. SOCIEDADE  A VIDA IMITA A FICO
11. PR-SAL  QUER EMPREGO E SALRIO ALTO? AQUI TEM
12. ESTILO  OL, MULHER REDEIRA

1. IDEIAS  SE O MAL  BANAL, O BANAL SER MAU?
Vinte e cinco anos aps sua morte, Andy Warhol, o gnio do pop, ganha a maior mostra sobre a influncia de sua obra.  uma boa hora para pensar no mal da banalidade.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Em seu magistral livro sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann, a filsofa Hannah Arendt cunhou a expresso banalidade do mal. Queria dizer que o mal  ainda mais perigoso do que supomos porque pode apresentar-se sob a aparncia de algo corriqueiro, comum. Invertendo-se os termos da expresso de Arendt, tem-se um outro conceito: o mal da banalidade. Nesse caso, a expresso  um alerta para os perigos da prpria banalidade. Com sua gentica trivial e vulgar, a banalidade pode tornar-se ela mesma fonte de algo nocivo, degradante. A pergunta certa, costurando os dois conceitos, seria a que est no ttulo deste texto: se o mal pode esconder-se sob a fantasia da banalidade, ser que a prpria banalidade, por simplesmente ser o que , pode fazer o mal?
     A questo vem  mente com a exposio que o Metropolitan Museum of Art de Nova York abre nesta tera-feira e fecha em 31 de dezembro. Ser a maior mostra j feita para explorar a influncia da obra do americano Andy Warhol (1928-1987), o gnio do pop. A exposio tem cerca de 150 obras. Um tero  de trabalhos de Warhol, incluindo suas latas de sopa Campbells e suas Marilyn Monroe. Dois teros so obras de 59 artistas americanos e estrangeiros  entre eles o brasileiro Vik Muniz. Em sua alentada anlise publicada no catlogo da mostra, o curador Mark Rosenthal se pergunta se o mal da banalidade se aplicaria de algum modo s obras de Andy Warhol, que retratam as mais entediantes banalidades: latas de sopa e caixas de bombril, geladeiras e remo- vedores de calos dos ps.
     A dvida de Rosenthal  um elogio, no uma crtica, ao trabalho de Warhol. Ele quer saber se o gnio do pop, ao escolher temas banais como latas de sopa e caixas de bombril, estava querendo denunciar as banalidades que vivem roubando nossa ateno de assuntos mais srios  ou, na outra hiptese, se Warhol simplesmente retratou banalidades que, no seu entender, mereciam alguma contemplao de nossa parte, pelo menos por instantes. Rosenthal no est seguro sobre a resposta correta, mas afirma que a escolha dos temas de Warhol era uma tentativa consciente de provocar e ofender o mundo institucional da arte, como um impressionista francs do sculo XIX.
     Numa exposio organizada para avaliar o alcance e a natureza da influncia de Warhol, existe uma terceira hiptese para discutir: ser que a banalidade de Warhol causou um mal  arte contempornea? Ser que, em vez de denunciar a banalidade e seus perigos, Warhol tratou de celebr-la, festej-la e entroniz-la na arte contempornea? Ampliando a pergunta, para no ficarmos limitados ao campo das artes plsticas: ser que a banalidade em si tem feito mal ao mundo contemporneo?
     Ao provocar essa reflexo, a exposio mais do que uma mostra artstica.  sociologia da arte. Antes que o capitalismo chegasse ao reino da tecnologia eletrnica, o motivo essencial dos artistas pr-modernos era a natureza: paisagens e flores, homens e mulheres, vento e luz, chuva e lgrimas. Quando a tecnologia eletrnica entrou em cena, quando as cidades e os meios de comunicao de massa passaram ao centro da experincia humana, a pop art encontrou o habitat adequado para explodir e florescer, e o fez com deliciosa irreverncia e espantosa criatividade. As capas de revistas, as fotografias nos jornais, as imagens de televiso, a propaganda, os anncios luminosos, as celebridades do cinema, a produo em massa e o consumo em massa  tudo isso comps o universo vibrante da nova arte. Como tantas outras coisas dos anos 60, a pop art fez um barulho imenso, mas logo virou silncio.
     O grande crtico australiano Robert Hughes, que escreveu durante mais de trinta anos para a revista Time e morreu no incio do ms passado, dizia que Warhol s foi importante de 1962 a 1968. Em 1962, ele despontou na cena artstica de Nova York. Em 1968, foi alvejado por uma feminista maluca que invadiu seu ateli. Nesses seis anos, Warhol fez tudo o que conhecemos: as latas de sopa, os retratos de Marilyn e outros tantos famosos. Usou fotografia e serigrafia. Adotou a apropriao, trabalhando a partir da criao de terceiros, e a repetio de imagens. A abundncia gerando anestesia, tal como o excesso de informao na era da comunicao de massa. A imperfeio proposital de suas imagens, fora de registro, sugere um tempo veloz em que a leitura cedeu espao  olhada rpida das manchetes. Nesse perodo intenso, Warhol foi o melhor intrprete do seu tempo.
     Ele no foi pioneiro em nada. Antes dele, outros artistas j haviam pintado garrafas de Coca-Cola, usado serigrafia e serializao visual no mesmo sistema de grade. Mas Warhol foi um grande popularizador de tudo isso, ele que era um mestre da publicidade e do marketing. Depois de 1968, no houve muito mais para popularizar. Seus mais de 200 retratos do lder chins Mao Ts-tung, feitos j na dcada de 70, so uma imitao de sua prpria obra. Warhol voltou a ser um ilustrador comercial, produzindo retratos para quem pagasse, e entretinha-se com a Interview, sua revista de fofocas. O crtico Hughes, numa de suas fisgadas ferinas, perguntou-se: o que tinham na cabea os bem-pensantes dos anos 60 e 70 quando acharam que um ilustrador comercial e editor de revista de fofocas podia ser um subversivo cultural?
     Com seu ar de distanciamento, sua fleuma de indiferena, sua afetao de modstia  Em alguns anos, minha obra no significar nada , Warhol era um mestre na autopromoo. Sabia que o mistrio, mas o mistrio descolado, cool, era mais fascinante que a revelao. Sua obra carrega a mesma nota. Nela, no h catarse, nada de fluxo inconsciente, sonhos ou memria. Nela, tudo  direto, superficial, chapado. Uma misteriosa ausncia de mistrio. Para alguns crticos, Warhol era um artista fechado. Para outros, era oco. Warhol no explicava sua obra e, nas raras vezes em que o fez, deu explicaes contraditrias. Para uns, sua obra disse tudo. Para outros, no disse nada.
     Mas, exatamente por tudo isso, Warhol acabou deixando uma herana generosa para os artistas que o seguiram. Como sua obra no impe nada, como nela no h voz imperativa, seus seguidores podem trilhar qualquer caminho. Jeff Koons  o filho dileto, extremista do banal e expoente do kitsch. Na exposio, ele comparece com uma escultura de cermica vitrificada de Michael Jackson e seu chimpanz de estimao, tudo em branco e dourado.  um emblema perfeito: a celebridade kitsch. O alemo Sigmar Polke, que pintava potes de plstico, e seu compatriota Gerhard Richter, que esculpiu um saco de areia para gato, escolheram a banalidade e alcanaram um patamar pattico. Outros adotaram uma voz poltica que Warhol jamais alcanou, ou quis alcanar.
     O pintor Ai Weiwei, dissidente chins que hoje tem quase a mesma idade com que Warhol morreu, pintou o logo-tipo da Coca-Cola num vaso neoltico chins e mandou um recado claro: o capitalismo americano tomou conta da China. No tem fora, porque a arte como denncia poltica no tem fora desde que Picasso pintou Guernica, mas pelo menos tem inteno. A americana Karen Kilimnik pintou Paris Hilton como Maria Antonieta passeando no seu petit hermitage. O fio condutor entre as duas  a mtua alienao em relao  realidade das massas. O americano Robert Gober, nos passos da serializao de Warhol, faz um papel de parede que, cobrindo uma enorme parede da exposio, gera um tremendo impacto. Com fundo creme e desenhos delicados, o papel, visto de longe, parece prprio para decorar um quarto de beb. Quando o visitante se aproxima, v um branco dormindo e um negro enforcado. como se fazia no sul racista.
     Os tempos de hoje so mais velozes e mais banais do que a dcada de 60 em que Warhol brilhou. Estamos na era dos 140 toques do Twitter, na imensa popularidade dos Big Brother. Os amigos de Warhol dizem que, se o artista fosse vivo, certamente seria um aficionado do Facebook, um apaixonado por reality shows e j teria feito um retrato de Lady Gaga. Como sua obra no progrediu depois de 1968,  bem provvel que estivesse hoje repetindo a si mesmo na escolha de contedos banais. Sua obra, e sobretudo sua herana,  um convite  reflexo sobre o que foi feito da arte e de ns mesmos nesse meio sculo desde que Warhol veio  luz.
     Tendo sido o primeiro artista a abraar fama e mercado com gozo, Warhol foi importante como um desbravador de fontes e mtodos e meios. Ganhou dinheiro sem constrangimento, buscou assunto em lugares em que seus antecessores no viam nada e apresentou-os com o emprego de mltiplas tcnicas modernas. Mas Warhol nunca fez da arte um veculo de expresso pessoal. Talvez porque no quisesse faz-lo. Talvez porque no tivesse nada a dizer. Quando deixou de ser inovador, legou-nos a banalidade repetitiva, o culto  celebridade famosa por ser famosa. D dinheiro. Em novembro, sua fundao vai comear a vender ou doar todo o acervo. Poder arrecadar 100 milhes de dlares. Os recursos sero usados para apoiar artistas.  generoso  mas que financiem talentos capazes de nos ajudar a superar o mal da banalidade. 


2. GENTE
JULIANA LINHARES

A DUQUESA DESCALA
Em visita a uma mesquita na Malsia, a futura rainha da Inglaterra, KATE, surgiu quase virginal, de vu na cabea e sem sapatos, como pede o protocolo muulmano. Na sacada de seu apartamento numa pousada de luxo na Frana, em
companhia apenas do marido, o prncipe William, ela tirou a parte de cima do biquni para tomar sol  e, insinuou-se depois, fazer umas outras coisinhas. Ambos os comportamentos foram perfeitamente adequados aos respectivos ambientes, exceto pelo fato de que o casal, que tem o ttulo de duque e duquesa de Cambridge, vive sob regras especiais: seu munDdo de privilgios, deferncias e genuna admirao pblica  acompanhado de lentes implacveis, como as do fotgrafo que vendeu sua obra para uma revista francesa. No d nem para tirar as marquinhas ou fumar um cigarro em paz, como fez Kate.

O CRIME DE TIMING DO HOMEM DA MALA
Desde o ano passado, o homem mais rico da Frana, BERNARD ARNAULT, dono do maior conglomerado de grifes de luxo  entre elas, a de bolsas e malas com o famoso monograma sobre fundo marrom , tem residncia e sociedade na Blgica, mas resolveu requisitar a cidadania no pas vizinho bem na hora que o governo do presidente Franois Hollande anunciou um estratosfrico aumento de imposto de renda. A Frana de gauche veio abaixo e no adiantou Arnault dizer que continuaria pagando direitinho todos os seus impostos no pas. V se danar, rico cretino, proclamou, em linguagem um pouco mais crua, o jornal Libration. E, digitalmente, colou-lhe na mo uma malinha mequetrefe.

A MARCA DA ESTUPIDEZ
A situao entre os cantores CHRIS BROWN e Rihanna j tinha todas as caractersticas autodestrutivas: ele, infamemente, deixou o lindo rosto dela desfigurado numa briga de namorados, mas os dois apresentam sinais cada vez mais patentes de reatamento. Numa entrevista recente, Rihanna chamou o cantor de amor da minha vida e defendeu com dentes e unhas  daquelas, compridas e pontudas como usa  que o tenha perdoado. A sua prpria e sinistra maneira, Brown tambm reafirmou seu amor por ela: uma nova tatuagem  horrorosa, em todos os sentidos  de uma ssia da cantora com o rosto todo arrebentado.

DE PUNK EM PUNK
Os principais eventos deste ano na vida da cantora e atriz MILEY CYRUS vm adquirindo cada vez mais pontos na escala Nossa, que coisa esquisita. Em maio, ela foi pedida em casamento e ganhou do namorado, Liam Hemsworth, o cobiado ator de Jogos Vorazes, um anel com um brilhante de 3,5 quilates. Tudo timo, no estivesse a prpria Miley algo sem brilho: dietas e exerccios obsessivos j haviam consumido 15 quilos de seu corpo mido. Para reforar a mudana do visual, ela tosou e descoloriu os cabelos, com a raspadinha lateral ao estilo punk que voltou  moda entre garotas rebeldes. Na semana passada, foi lavrado um boletim de ocorrncia no qual Liam e Miley aparecem como agressores numa clssica briga de boate: empurra-empurra, reao violenta, queixa na polcia, depois, desmentidos mil. Lembrete: Miley tem apenas 19 anos e, at h pouca tempo, na pele da personagem Hannah Montana, era uma espcie de princesinha da Disney e dolo de meninas sonhadoras do mundo todo.


3. CINCIA  O DNA NO PODE TUDO
Estudos recentes mostram que a molcula tem mais utilidades do que o esperado, mas est longe de ser o manual da vida que se julgava quando foi decodificada.
GUSTAVO SIMON

     H pouco mais de uma dcada, decodificou-se o que seria a receita perfeita de todos os seres: o DNA. Quando os bilogos Craig Venter e Francis Collins anunciaram o primeiro esboo do sequenciamento do genoma humano, em 2000, a ambio da cincia era que nos genes estivessem guardados todos os segredos da vida. Resumiu Venter em entrevista concedida a VEJA em 2010: Tinha-se uma compreenso um pouco ingnua e equivocada. Os cientistas esperavam encontrar mais de 130.000 genes no DNA do ser humano, cada um deles relacionado a um trao de personalidade ou a uma doena especfica. Via-se o genoma como um guia do inevitvel destino de cada pessoa: se ela seria magra ou gorda, de que tipo de profisso gostaria, se optaria por ter filhos, se passaria por perodos de depresso. O que se descobriu, porm,  que o DNA est longe de ser o manual completo e definitivo de nossa existncia. Ele rege, sim, a orquestra de clulas e processos qumicos que comandam nosso corpo em compasso perfeito desde o tero materno. S que no possui papel determinante no comportamento, nas ambies ou mesmo na beleza e no carisma de indivduos. Um estudo de flego divulgado neste ms por 442 pesquisadores em prestigiadas revistas de publicao cientfica, como a Nature e a Science, ajuda a esclarecer ainda mais quais seriam as reais funes de nossos genes. Uma verdade: a herana hereditria  determinante para estipular fora ou a fragilidade do organismo. Mas as pesquisas enterraram o velho conceito de que o genoma seria a gnese das questes da vida, desde a personalidade romntica de alguns at os quilinhos a mais na balana de outros.
     O consrcio de cientistas, membros do projeto Encode (sigla em ingls para Enciclopdia de Elementos do DNA), deu um passo alm nas pesquisas genticas ao compreender melhor  depois de cruzar todas as informaes disponveis  para que servem os 3,1 bilhes de pares de elementos qumicos que formam o genoma e a cadeia de 21.000 genes humanos, at aqui alvo dos estudos. Os tais 21.000 genes representam somente 2% do genoma humano  mas o novo estudo concluiu que 80% do total do DNA tem funo ativa no nosso corpo, um feito extraordinrio. Passados doze anos da decodificao do genoma, pouco se sabia sobre cada pecinha que compe a molcula em formato de dupla-hlice e com funes especficas na qumica do corpo. Os genes so retratados em combinaes de letras e nmeros  o HMGA2, por exemplo, determina a altura da pessoa. Ao restante dos genes, sem responsabilidades evidentes na beleza, no funcionamento e na constituio do organismo, se dava o nome de DNA-lixo.
     O que o projeto de 185 milhes de dlares do Encode revelou, pela anlise conjunta do comportamento de molculas de DNA presentes em 147 tipos de clulas corporais,  que o lixo no  lixo. Os elementos do DNA-lixo funcionam como interruptores que no s ligam e desligam os genes como tambm os ordenam. Eles dizem quais genes devem ser ativados e quando. No entanto, o DNA no pode tudo. As funes atribudas aos genes conhecidos e aos que compem a parte antes considerada lixo se limitam  organizao qumica do corpo. O principal papel do DNA  delinear se o organismo desenvolver doenas hereditrias e se ter predisposio a outros males, como o cncer. Alm disso, algumas caractersticas fsicas, como cor dos olhos e do cabelo, tambm so ditadas pelo genoma.
     Anunciou-se a descoberta do lixo til como um evento fascinante, e de fato . Mas convm olh-la de outro modo, menos evidente. O estudo ajudou a reforar que pode no haver ligao direta entre genes e comportamento (veja o quadro ao lado). Um trauma na infncia  mais determinante para alimentar uma tendncia  violncia do que variantes em uma ou outra letra do DNA.
     Por muito tempo se atribuiu a culpa pela depresso aos genes 5-HTTLPR e TPH2, que podem,  verdade, dificultar o metabolismo da serotonina, neurotransmissor que promove no crebro a sensao de bem-estar. Recentemente, revelou-se que a m funo desses neurotransmissores no  s gentica. Fatores emocionais afetam e alteram os genes e, por consequncia, o funcionamento da serotonina (e das emoes). Disse a VEJA Ewan Birney, coordenador do Encode: DNA no  destino. Somos o resultado de uma complexa mistura de genes e de como reagimos s escolhas que fazemos. No culpe a gentica de seus pais por todos os problemas.

O QUE OS GENES NO REGEM...
Simetria do rosto   determinada pela posio do feto no tero, que exerce presses variadas na face do beb.
Predisposio a uma srie de doenas virais  A capacidade de defesa do organismo a um grupo de vrus, como o sarampo, em nada dependem da gentica.
Desenvolvimento de diabetes  O tipo 2 depende principalmente de fatores como m alimentao, stress e sedentarismo.
Peso  Os quilinhos a mais e o acmulo de gordura localizada dependem no da herana gentica  mas, sim, de exerccios e alimentao.
Depresso  O gatilho para que ela se manifeste so fatores emocionais, como traumas psicolgicos.

...E O QUE CONTROLAM
Grupo sanguneo  O gene ABO especifica o tipo e o RhD determina o fator positivo ou negativo do sangue.
Colorao da pele e dos olhos  Genes administram a produo de melancitos, clulas que escurecem a epiderme, e definem se a ris  azul, castanha, verde.
Doena de Alzheimer  O risco de desenvolv-la e a idade em que ela aparece dependem de oito padres de genes.
Cnceres  ao menos dezessete, incluindo os de ovrio e clon, desenvolvem-se com facilidade em pessoas com 24 variantes de DNA.
Altura  variaes no gene HMGA2 dizem se a pessoa ser alta ou baixa.


4. SEXO  UM PONTAP NO SENSO COMUM
Vai-se uma antiga mxima da lei da atrao: em pases ricos, nem sempre os homens buscam fmeas bonitas para procriar e as mulheres, machos com dinheiro no bolso.
GABRIELA CARELLI

     Mulheres no gostam de homem, gostam de dinheiro. E os homens? Eles, sim, gostam de mulher. Desde que seja bonita. Para deleite da ala masculina, essa piadinha sexista que eles adoram contar nas rodas de bar, de preferncia na presena delas, ganhou respaldo cientfico h duas dcadas, com a psicologia evolutiva, o ramo do conhecimento que explica comportamento com base nos processos de perpetuao da espcie descritos na teoria da evoluo de Charles Darwin. Para essa corrente de pensamento, os seres humanos comem, dormem, amam, trabalham, mentem, sentem cime ou compaixo, brigam, confraternizam-se, ou seja, fazem quase tudo, com o intuito de propagar os genes e garantir a sobrevivncia  razo pela qual pessoas cultas, inteligentes e civilizadas agem como os seus ancestrais pr-histricos em diversas situaes, inclusive na hora de escolher o parceiro. Um macho alfa, bem-sucedido, resolve boa parte do problema da mulher e da prole, dizem os evolucionistas. Comida ao menos no vai faltar em casa E a predileo dos marmanjos pelas beldades? Beleza  sinal de sade, justificam, e garantia de filhos saudveis.
     Uma pesquisa da Universidade de York, na Inglaterra, recm-publicada na revista Psychological Science, da associao americana de psicologia, mostra que no  bem assim. Pelo menos nos relacionamentos amorosos, no somos refns absolutos da biologia, como propem os devotos de Darwin. Parte do desejo vem,  verdade, das cavernas. Afinal, somos resultado de milhes de anos de evoluo. Mas o nvel de desenvolvimento de um pas  varivel que tambm compe a tal frmula da atrao entre homens e mulheres. Explica o psiclogo suo Marcel Zentner, autor do estudo: As teorias da psicologia evolutiva sobre o que rege as escolhas dos parceiros s funcionam plenamente em pases onde h grande desigualdade entre os gneros. Nas naes desenvolvidas nesse aspecto, os critrios que definem o melhor parceiro, para ambos os sexos, so diferentes. E por isso que as alems, mulheres que desfrutam as benesses de viver na quarta economia do mundo, consideram as habilidades domsticas uma das principais qualidades de um homem, enquanto as mexicanas do mais ateno  conta bancria do rapaz, afirma o psiclogo. Esse mesmo raciocnio explica por que na Finlndia, nao exaltada por sua sociedade igualitria, as mulheres inteligentes so as mais disputadas e, na Turquia, a beleza da parceira ainda  fundamental.
     Para chegarem a esse resultado, os pesquisadores de York ouviram 3117 pessoas em dez pases, classificados em trs grupos a partir do ndice GGI (Global Gender Gap Index), do Frum Econmico Mundial, que mede o grau de igualdade entre os sexos com base nos dados econmicos, educacionais e de direitos civis. Os participantes tinham de escolher as caractersticas que mais os atraam em um parceiro e classific-las por ordem de importncia: idade, ser prendado, ser casto e fiel, ter boa aparncia, boa situao financeira, status, ambio, ter disposio para o trabalho e inteligncia. Nos trs pases com maior disparidade entre os sexos, Mxico, Coreia do Sul e Turquia, as respostas tanto de homens quanto de mulheres corresponderam s teses da psicologia evolucionista, ou seja, elas querem um bom provedor e eles, uma boa parideira. Nas naes com maior igualdade entre os gneros, Finlndia, Alemanha e Estados Unidos, no entanto, houve uma inverso de valores. O corpo e a mente humana no evoluram sozinhos. A economia e a cultura evoluram paralelamente, criando um ambiente muito mais complexo que a realidade das cavernas, argumenta o psiclogo suo.
     Nenhuma mulher gosta de ouvir que est de olho no bolso do marido  mesmo que seja verdade. Mais difcil ainda  aceitar a ideia de que o estupro nada mais  que uma adaptao evolucionria, como props absurdamente o psiclogo americano David Buss, da Universidade do Texas. Por causa de teses como essas, que corroboram o pensamento conservador e reforam os esteretipos feminino e masculino, a psicologia evolutiva passou a ser vista com enorme ressalva entre os acadmicos e virou o patinho feio das cincias humanas. No deveria ser assim. O prprio Darwin acreditava que sua teoria da evoluo, alm de explicar como o corpo humano adquiriu o formato e a complexidade atuais, poderia ser usada para entender como pensamos e agimos. A partir daqui, a psicologia se assenta sobre novas bases, disse o autor de A Origem das Espcies. No h nada de errado em explicar o comportamento  luz da evoluo. As novas teorias evolucionistas emergiram nos anos 90 como um contraponto ao determinismo cultural, diz o darwinista americano Jonathan Gottschall, da Universidade Washington & Jefferson. O erro  achar que tudo est limitado aos genes.
     Toda grande teoria cientfica  inclusive a magnfica teoria da evoluo  est sob o risco da generalizao. E justamente por isso o estudo de Marcel Zentner  relevante. A pesquisa d um pontap no senso comum e no reducionismo cientfico. O suo no  o nico de sua ctedra a tentar estimar o peso do progresso no comportamento. Em um trabalho seminal, que resultou no livro The Better Angels of Our Nature  Why Violence Has Declined (Os Anjos Bons Dentro de Ns  Por que a Violncia Declinou), o canadense Steven Pinker, uma das mais respeitadas vozes da psicologia evolutiva, demonstrou como o processo civilizatrio permitiu  espcie humana se livrar das amarras biolgicas, o que evitou a continuidade dos longos perodos de barbrie.
     A cincia ainda est longe de encerrar a discusso sobre o que pesa mais na formao da personalidade e nas atitudes humanas, se a herana biolgica ou a cultural. Estudos como o de Pinker e o de Zentner reforam a tese de que ambas so decisivas.  o bom-senso na contramo do chavo.

A MARCA DO PROGRESSO
Pesquisa feita em dez pases mostra que as teorias da psicologia evolutiva sobre o que rege a escolha dos parceiros valem nos locais onde a desigualdade entre os gneros  grande, mas no em naes desenvolvidas.
Fonte: Marcel Zentner e Klaudia Mitura, da Universidade de York (Inglaterra)

APARNCIA
O que diz a psicologia evolutiva: homens preferem as belas. Uma boa aparncia  sinal de sade.
O que revela a pesquisa: Pases ricos - Na Finlndia, os homens tm predileo pelas mulheres inteligentes; Pases pobre - Na Turquia, a beleza  a caracterstica
crucial na escolha da parceira.

DINHEIRO
O que diz a psicologia evolutiva: As mulheres gostam de homens ricos, capazes de prover a prole
O que revela a pesquisa: Pases ricos - Na Alemanha, as mulheres querem um homem que saiba cozinhar e limpar a casa; Pases pobre - No Mxico, a conta bancria do parceiro vem em primeiro lugar.

CASTIDADE
O que diz a psicologia evolutiva: Os homens querem uma mulher fiel, garantia de que os filhos so deles
O que revela a pesquisa: Pases ricos - Nos Estados Unidos, a castidade das parceiras no preocupa os homens; Pases pobre - Em Portugal, virgindade ainda  importante.

PRENDAS DO LAR
O que diz a psicologia evolutiva: Os homens querem uma mulher que cuide da casa, dos filhos e do seu jantar
O que revela a pesquisa: Pases ricos - Na Finlndia, os homens preferem mulheres ambiciosas; Pases pobre - Na Polnia, as donas de casa so mais bem cotadas.

COM REPORTAGEM DE SIMONE COSTA


5. TECNOLOGIA  EVOLUO SEM REVOLUO
O barulho com o lanamento do iPhone 5 no esconde o complicado problema da multibilionria Apple: a falta de criatividade desde a morte do mgico Steve Jobs.
FILIPE VILICIC

     Steve Jobs reinventou sucessivas vezes a indstria digital. Mudou para sempre pelo menos trs setores inteiros: o da computao pessoal, o da msica e o dos celulares. Nos anos 70, com o Apple II, antessala do Mac, ps em nossas mesas um precursor do desktop com a cara que conhecemos hoje. Revirou a indstria da msica, a partir de 2001, com o tocador iPod e ao matar a pirataria e a contrafao, com canes baratas vendidas pelo iTunes. Em 2007, ao lanar o iPhone, fez com que os aparelhos portteis que o precediam virassem monstrengos quase inteis, de um tempo em que os telefones eram usados apenas para ouvir e falar. Ah, e pouco tempo antes de morrer ele ainda criou do zero um novo mercado, com o iPad. Era uma extraordinria chacoalhada atrs da outra, e ficamos todos mal-acostumados com tanta inovao. A morte de Jobs, em outubro do ano passado, imps uma indagao: depois dele, do gnio criativo e hiperativo, a mgica terminaria?
     Talvez sim,  o que indica o iPhone 5, anunciado com estardalhao na semana passada, mas incapaz de provocar os suspiros de empolgao que acompanhavam as glamourosas apresentaes de Jobs, incontornveis festas de marketing. O novo executivo da empresa, Tim Cook, um administrador discreto e competente que imita o antigo chefe na camisa preta e cala jeans, mas est a anos-luz do carisma de seu antecessor, no esconde de ningum que  impossvel emular Jobs. Um bordo repetido pelos funcionrios da Apple nos corredores da empresa, em Cupertino, d o tom do novo tempo ante os recentes lanamentos:  uma evoluo, e no mais uma revoluo.
     O iPhone 5 tem novidades interessantes, mas no invenes. Ele vem conectado  rede 4G da telefonia celular, que acessa a internet dez vezes mais rpido (algo que concorrentes, como a Samsung, j tinham feito). A tela  de 4 polegadas, maior que a de 3,5 do 4S (confira abaixo, em tamanho real). E ainda o smartphone mais fino do mercado: sua estrutura de alumnio de 7,6 milmetros  feita de material 18% menos espesso e 20% mais leve que o do modelo anterior. O celular tambm ganhou um novo cabo conector para ligar a computadores e tomadas: menor, resistente e capaz de carregar a bateria mais rapidamente. S que obrigar os donos de smartphones e tablets da Apple a trocar os cabos anteriores, presentes na maioria dos produtos da empresa, e a comprar adaptadores (a 30 dlares cada um). As transformaes expressivas esto no programa operacional iOS 6. As principais: o GPS  guiado por uma voz, mapas de cidades so mostrados em 3D e a Siri, que entende os comandos que se diz em ingls, ficou mais esperta. O preo permaneceu o mesmo  de 200 a 400 dlares nos EUA, e cerca de 2000 reais no Brasil. Mas h uma pssima notcia: a maioria das novidades, incluindo o 4G, no funciona por aqui, e no estar disponvel em dezembro, quando o aparelho chega s lojas brasileiras (veja o quadro abaixo).
     A falta de grandes novidades fez brotar chacota na internet. Numa delas, um chefo da Microsoft pergunta ao seu par da Apple: Qual  sua estratgia para vender mais?. A resposta: Pegarei meu smartphone antigo e o deixarei um pouco maior. O tom  de decepo. O iPhone 5 tem avanos, principalmente na tela, melhor para jogos e para ler notcias, mas no h reviravoltas, diz o brasileiro Breno Masi, scio de uma srie de empresas que desenvolvem aplicativos, sempre convidado a testar os novos softwares da Apple.
     Foi-se, ainda que temporariamente, o charme do tempo de Jobs, mas essa subtrao ainda no tocou no bolso da empresa, longe disso. Espera-se que 5,5 milhes de iPhones 5 sejam comprados nos primeiros trs dias de venda. Avaliada em 650 bilhes de dlares, a Apple  a companhia mais valiosa da histria. H, porm, obstculos. Em 1985, Jobs foi afastado da Apple por ter entrado em conflito com o ento CEO, John Sculley, que no concordava com as abordagens inventivas de Jobs. Em um primeiro momento, Sculley conseguiu aumentar o faturamento. Mas a falta de surpresas, alimento vital no setor de tecnologia, levou o grupo a uma brusca queda financeira. Em 1996, a Apple namorava a falncia quando Jobs retomou a companhia e a reconstruiu. O risco  a histria se repetir na gesto de Tim Cook, atropelado pela dificuldade de inovar.

NO  PARA BRASILEIROS
A sexta gerao do smartphone da Apple, de tela maior e espessura menor, tem inovaes que ainda no funcionam no Brasil  e no estaro disponveis em dezembro, quando o aparelho chegar s lojas do pas.
4G - A rede 4G que est em fase de implementao no Brasil (por enquanto, opera em apenas trs cidades) no  e nem ser compatvel com o iPhone 5. Ele funcionar somente no modo 3G.
O GPS - Os mapas agora so narrados por uma voz  como no GPS de carros  e o trnsito  atualizado em tempo real.  um recurso til e disponvel em dezenas de pases, como Nambia e Argentina. Mas no no Brasil.
COMANDO DE VOZ - Aumentou o QI da assistente virtual Siri. Integrada ao Facebook e ao Twitter, ela procura por salas de cinema, compra ingressos on-line e tem informaes de campeonatos esportivos. Nada funciona no Brasil. A Siri ainda nem fala (ou entende) portugus.
MAPAS 3D - O novo sistema operacional tem um aplicativo que mostra cidades em trs dimenses com imagens ultrarrealistas. Nenhuma metrpole brasileira est no pacote.


6. EDUCAO  E A CONTA NO FECHOU
O Brasil avanou como poucos nos gastos com o ensino, mas esse esforo est longe de se traduzir em excelncia.

     Sempre que um novo indicador expe o atraso brasileiro na sala de aula aparece gente atribuindo o fiasco ao acanhado oramento da educao. Existe razo num ponto: o Brasil, de fato, investe menos nessa rea do que as naes mais desenvolvidas da OCDE, justamente as que esto na dianteira do ensino. Um relatrio divulgado na semana passada confirma isso, mas alerta, por meio de um convincente conjunto de dados, que a discusso est longe de se encerrar a. E que at a ideia de que o dinheiro  pouco precisa ser relativizada. Produzido pela prpria OCDE desde 1992, o Education a a Glance  espcie de bblia estatstica da educao, que rene e compara dezenas de indicadores em 42 pases  mostra que poucos fizeram tanto esforo quanto o Brasil para engordar o caixa do ensino. A fatia do PIB para a rea aumentou 57% na ltima dcada, menos apenas do que na Rssia, onde as verbas avanaram 90%. Numa conta que considera apenas os gastos pblicos, o Brasil j surge, surpreendentemente, no mesmo nvel das naes mais ricas. S que a qualidade no acompanhou o empenho financeiro, e o pas permaneceu no mesmo incmodo patamar de sempre, ombreando com os piores do mundo, como enfatiza o ranking da OCDE.
     O documento vem em boa hora, j que o Congresso Nacional discute uma proposta de fazer o volume de recursos para a educao chegar a 10% do PIB. Nenhum pas da OCDE gasta tanto (a Islndia, campe nesse quesito, investe 8%). Ainda que as intenes sejam boas, a questo-chave, sobre como converter essa vistosa cifra em um ensino de alto nvel, parece passar ao largo do debate em Braslia. Pouco vai adiantar colocar mais e mais dinheiro em um sistema inoperante.  preciso reform-lo, diz o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA. A luz da experincia internacional, ele e outros especialistas batem na tecla de que s ser possvel dar o decisivo passo em prol da qualidade se o pas passar a atrair gente talentosa para a carreira de professor. No h muito mistrio sobre os caminhos, como observa Maria Helena Guimares, presidente da Fundao Seade: A nica maneira de despertar o interesse de nossas melhores cabeas pela sala de aula  implantando um regime de meritocracia, que lhes d incentivos e um bom horizonte profissional. Esse, sim, um investimento que sabidamente compensa. H outro essencial, que no requer dinheiro, mas uma radical mudana de mentalidade. Muito tericos e aferrados a velhas ideologias, os cursos de pedagogia devem comear a formar gente verdadeiramente preparada para alar o Brasil ao ranking que importa  o da excelncia. 
GABRIELE JIMENEZ

S DINHEIRO NO BASTA
Na ltima dcada, o Brasil foi o vice-campeo em aumento de recursos para a educao, s perdendo para a Rssia,...
Porcentual de gastos em relao ao PIB
2000: 3,5%
2009: 5,5% 
Aumento de 57%
Mdia da OCDE: 6,2%
...mas continua entre os ltimos na sala de aula
Posio no ranking do Pisa;
2000: 32 entre 32 pases
2009: 53 entre 65 pases
Fontes: Education at a Glance e Pisa/OCDE


7. VIDA DIGITAL  O GENE DA WEB
Sites e redes sociais adotam uma teoria nascida na biologia para explicar manifestaes que se propagam pela internet em forma de piadas e truques visuais.
FILIPE VILICIC

     No meio acadmico, meme  uma ideia ou um hbito que se espalha pela sociedade. O termo foi cunhado pelo bilogo Richard Dawkins em seu clssico O Gene Egosta, de 1976. Dawkins definiu meme como a substncia do caldo da cultura. Tanto conceitos religiosos quanto a cincia tm base nessa unidade  crena em divindades e frmulas da fsica so exemplos de memes. Comparou Dawkins: Tal como os genes se propagam entre corpos, os memes saltam de crebro para crebro por um processo de imitao. Enquanto os genes impulsionam a evoluo biolgica, a replicao de memes garante o progresso do conhecimento. O conceito, antes restrito a universidades, agora se popularizou na internet. O mundo virtual se apropriou do termo e, a seu feitio, o transformou. No glossrio online, meme passou a se referir a imagens replicadas continuamente e, quase sempre, associadas a piadas e brincadeiras. Virou algo rotineiro no Facebook e em sites de humor. Os memes podem vir em forma de vdeos, fotos, desenhos ou frases espirituosas.
      difcil rastrear a origem dos memes, j que a maioria  criada por annimos. Fundado em 2008, o site Know Your Meme (em ingls, conhea seu meme) tema pr ordem nesse amontoado. Em formato de dicionrio, a pgina rene mais de 1300 memes. Qualquer um pode cadastrar um novo exemplar. A equipe de administradores analisa o que  registrado pelos usurios e divide os memes em trs categorias: confirmados, sob avaliao e descartados. H 3000  espera de crivo. Outros 4200 foram eliminados por no ser populares ou por no ser classificados como memes, e sim como virais. Na web, viral  tudo o que se espalha rapidamente. Todo meme  viral. A diferena  que o meme no s se propaga como tem caracterstica de bordo  repete-se em diferentes circunstncias, comeando ou concluindo uma ideia. Os aceitos pelo Know Your Meme viram verbetes. O mais procurado no site  o Forever Alone (em ingls, sempre sozinho): um desenho de um garoto que chora por estar s. Criado em 2009 em um frum eletrnico,  associado a cenas de solido (como para retratar algum que lamenta a falta de amigos).
     Assim como o Forever Alone, o caminho costumeiro dos memes  nascer em fruns on-line e ganhar fama em sites de humor. Explicou a VEJA o chins Ray Chan, fundador do 9gag.com, pgina de comdia que serve como principal divulgador de memes: Eles surgem em reao a algum acontecimento. Depois, so remodelados conforme se espalham at que tomem forma final e virem bordo. No costumamos saber onde comeam. Mas  fcil entender o significado de cada meme. Com sede em Hong Kong, o 9gag foi criado em 2008 por Ray e seu irmo, Chris, para servir de plataforma de divulgao de imagens enviadas por annimos. Rapidamente se tornou um site de humor. As piadas vm de colaboradores  que nada recebem em troca das contribuies (a no ser reconhecimento passageiro). O site  visitado mensalmente por 70 milhes de pessoas e, em julho, recebeu 3 milhes de dlares de investidores. Entre os memes que se propagam por ele est um de Barack Obama com uma careta cmica (veja o quadro ao lado).
     Os memes foram adotados tambm por quem j lucra com o humor na web  a exemplo dos irmos do 9gag. Em paralelo  origem tipicamente amadora dessas manifestaes, comediantes profissionais tm criado seus memes. Piadas esto entre os tpicos mais compartilhados na internet. A evoluo natural  profissionalizar a cultura moldada pelo humor on-line, disse a VEJA o americano Jonah Peretti, fundador do BuzzFeed. Peretti montou o BuzzFeed paralelamente ao seu trabalho em outro site que ajudou a criar, o noticioso The Huffington Post. Depois da venda do Huffington por 300 milhes de dlares para a AOL, Peretti passou a se dedicar exclusivamente ao site de comdia. O BuzzFeed tem 130 profissionais e cria contedo prprio: textos que mesclam notcias a humor e, evidentemente, memes. Um deles ressuscita a ideia de uma conhecida foto da dcada de 20 inspirada no mitolgico Cavaleiro sem Cabea. No retrato h uma pessoa deitada com a cabea escondida enquanto outra mostra o rosto por cima de uma mesa. Depois de ser reatualizado pelo BuzzFeed, o meme ganhou o apelido de falsa decapitao. Analisa Peretti, em tom terico: O meme virtual  parecido com o do mundo acadmico. Enquanto o idealizado por Dawkins forma piscinas de conhecimento, o da web serve de base para a cultura on-line.

DA IDEIA AO MEME
Os quatro passos do processo de criao de um dos memes mais compartilhados na web: o Not Bad Face (em ingls, cara de nada mal)
1. O presidente americano Barack Obama foi fotografado com a expresso cmica em visita que fez  Inglaterra em maio de 2011. Na imagem, ele reagia  chegada da rainha Elizabeth II a um encontro entre ambos.
2. NOTBAD - Dois dias depois, um annimo identificado pelo apelido joeyjoejoe99 se baseou na foto para criar o meme, com a frase Not Bad
3. A imagem se espalhou por sites de humor e redes sociais, como o Facebook (no qual ganhou uma pgina com 215.000 fs)
4. O meme  usado para expressar contentamento. Na montagem, foi associado a Obama provando uma cerveja. Tambm virou estampa de camiseta.

COM REPORTAGEM DE RENATA LUCCHESI


8. SADE  BERREIRO LIBERADO
O beb acordou  noite e est aos prantos no bero? Calma. Deixar a criana chorar  uma ttica eficaz e segura para ensin-la a dormir sozinha.

     Se voc  pai ou me, conhece o martrio. Tudo est calmo, todos dormem, quando o choro do beb rompe o silncio da noite. A criana deve ir para o colo para se acalmar ou continuar no bero gritando para no ficar mal-acostumada? A segunda opo  a mais sensata, lgico, mas tambm a mais aflitiva. A revista cientfica americana Pediatrics traz um estudo que nos livra de culpas. Liderado pela pesquisadora Anna Price, da Universidade de Melbourne, na Austrlia, o trabalho mostra que deixar o rebento voltar a dormir sozinho, apesar das lgrimas, no resultar em trauma. E, a curto prazo, oferece benefcios: melhora a qualidade do sono do beb e diminui os sintomas de depresso entre as mes. O choro saudvel dura, no mximo, meia hora  quando a maioria das crianas j adormeceu por conta prpria.
     A pesquisa australiana acompanhou 225 crianas dos 4 meses aos 6 anos. A partir do stimo ms de vida, todos os bebs apresentavam problemas de sono acordavam no meio da noite e no conseguiam voltar a dormir sozinhos. Uma parte dos pais no recebeu orientao especial. Os outros foram treinados a utilizar tcnicas de terapia comportamental  o choro controlado e o acampamento no quarto. Desenvolvido na dcada de 80 pelo pediatra americano Richard Ferber, o controle do berreiro consiste em deixar a criana chorar por um tempo at que os pais entrem no quarto para tranquiliz-la  sem colo ou chamego. Na primeira noite, a espera varia de dois a trs minutos, at chegar a trinta minutos depois de uma semana. Na estratgia do acampamento, os pais sentam-se perto do bero e, com o passar dos dias, afastam-se cada vez mais at sair do quarto.
     De cada 100 crianas, trinta apresentam dificuldades durante o sono. Na maioria dos casos, a responsabilidade  dos pais. Por ansiedade ou cansao, eles fazem de tudo para que o anjinho durma  desde zanzar de um lado para outro com o beb no colo at tirar o carro da garagem e dar voltas no quarteiro. Os primeiros anos de vida so cruciais para o estabelecimento de uma rotina de sono. At os 6 meses, como o relgio biolgico dos bebs no est completamente ajustado,  normal que eles acordem vrias vezes durante a noite. Depois, o ritmo de sono e viglia  determinado em parte pelos hbitos da famlia. Pais que no conseguem estabelecer limites para o sono de seus filhos s pioram a situao, diz a neurologista Magda Laborgue Nunes, presidente do Ncleo de Estudos sobre o Sono da Sociedade Brasileira de Pediatria. Para o bem de todos, o melhor a fazer  segurar a ansiedade e deixar o beb chorar, como se o pranto fosse uma agradvel cano de ninar.
NATALIA CUMINALE


9. COMPORTAMENTO  A HORA DO ARREPENDIMENTO
Agora que todo mundo j tem tatuagem, comea a corrida aos dermatologistas para se livrar dela. S que esse  um processo dolorido, demorado, caro e o sucesso  parcial.
CAROLINA MELO

     Quando estava prestes a se casar, em setembro do ano passado, a empresria gacha Adriana Ribeiro, de 31 anos, percebeu que no grande dia teria de usar maquiagem em dose dupla. Alm de aplic-la no rosto, como de praxe, precisaria empreg-la no ombro esquerdo, para esconder a vistosa tatuagem de quase 15 centmetros que ela ostenta representando uma fnix. Adriana j havia feito a primeira de uma srie de aplicaes de raio laser destinadas a remover a tatuagem, mas sabia que seriam necessrias outras sesses  todas doloridas, j que o laser queima a pele, geralmente deixando-a sensvel e com bolhas por vrias semanas. Nos ltimos doze meses, ela s teve coragem de se submeter a outras duas sesses de remoo.
     A popularizao da tatuagem nas ltimas duas dcadas, principalmente entre os jovens, provoca agora uma corrida dos arrependidos aos consultrios dos dermatologistas para apagar os desenhos na pele. Nos Estados Unidos, a Sociedade Americana de Cirurgia Dermatolgica registrou 96.500 procedimentos para remover tatuagens em 2011  11.000 a mais do que no ano anterior e 25.000 a mais do que em 2009. Disse a VEJA Mitchel Goldman, professor de dermatologia da Universidade da Califrnia: Estima-se que 30% dos americanos com menos de 30 anos tenham tatuagem. A probabilidade de eles virem a se arrepender  grande. Muitos pacientes que chegam ao meu consultrio fizeram a tatuagem depois de beber demais ou impulsivamente, numa viagem de frias.
     No Brasil, no h estatsticas equivalentes s americanas sobre tatuagens, mas os mdicos atestam que a quantidade de arrependidos que chegam ao consultrio no para de crescer. Calculo que, neste ano, o nmero de pacientes que recebi em busca de remoo de tatuagens tenha aumentado em 50%, diz o dermatologista carioca Alexandre Filippo. Seu colega paulista Adilson Costa, da PUC de Campinas, expe as dificuldades que muitos desses pacientes enfrentam: De cada dez pessoas que me procuram para remover tatuagens, apenas duas efetivamente iniciam o processo. Algumas no aguentam a dor, outras no podem pagar pelo tratamento e h as que percebem que, em vez de remover uma tatuagem antiga que se tnorou indesejada,  mais fcil fazer uma nova por cima. Remover uma tatuagem pode custar at vinte vezes mais do que aplic-la. Por um desenho pequeno, de 5 centmetros, os tatuadores cobram, em mdia, 200 reais. O preo para retirar o mesmo desenho chega a 3000 reais.
     O grau de sucesso da remoo depende das cores da tatuagem. Tons escuros, como preto e azul-marinho, so mais fceis de remover, mas  quase impossvel apagar totalmente as cores claras. Mesmo quando o desenho  eliminado por completo,  comum a regio da pele onde repousava a tatuagem ficar manchada, com um tom esbranquiado. A ao do laser  agressiva. Uma vez que o raio atinge a tatuagem, ele explode os pigmentos em partculas ainda menores, que so absorvidas pelas clulas de defesa do organismo, os macrfagos. Essas clulas so eliminadas pelo sistema linftico, levando consigo os micropigmentos.
     Segundo as pesquisas americanas e os depoimentos dos mdicos brasileiros, grande parte dos tatuados arrependidos se encontra na faixa de 35 a 40 anos. A maioria deles procura pelo tratamento porque fez a tatuagem ainda jovem e ela se tornou um estorvo  ou porque enjoou do desenho, ou porque ele simboliza um momento no passado que no guarda mais relao com o presente. A dermatologista Amy Derick, de Chicago, membro da Sociedade Americana de Dermatologia, conta que muitas pessoas a procuram porque a tatuagem est atrapalhando sua vida profissional. Disse Amy a VEJA: H pacientes to traumatizados com a tatuagem que exibem na pele que, mesmo sabendo que ela no ser removida completamente, se satisfazem com a perspectiva de que pelo menos as pessoas no entendam o que mostra o desenho.
     Tambm numerosos, na fila dos arrependidos, so aqueles que tatuam o nome do parceiro pelo qual esto apaixonados e querem remov-lo depois que o relacionamento acaba. A atriz Angelina Jolie faz parte desse grupo. Ela tatuou o nome de seu ento marido, o ator Billy Bob Thornton, no brao esquerdo, seguido do desenho de um drago. O casamento durou trs anos, mas a tatuagem ficou l por mais dois, at que ela decidisse extirp-la. Primeiro, tirou o nome de Thornton e, depois, o drago. A superfcie que, mesmo aps a remoo, ficou com manchas mais claras do que seu tom de pele  hoje ocupada pelas coordenadas geogrficas do local de nascimento de seus seis filhos e do atual companheiro, Brad Pitt. O ator Johnny Depp tambm caiu na mesma cilada e fez uma homenagem  noiva, a atriz Winona Ryder. Tatuou no brao Winona Forever (Winona para Sempre). Quando o relacionamento acabou, depois de trs anos, Depp apagou as duas ltimas letras do nome da atriz e manteve Wino Forever (Bbado para Sempre).
     O laser utilizado para retirar tatuagens  o mesmo que remove da pele manchas solares e senis. Funciona com disparos que duram fraes de segundo. O equipamento foi desenvolvido vinte anos atrs por uma equipe de engenheiros e dermatologistas dos Estados Unidos. No momento, a expectativa dos mdicos  e dos tatuados arrependidos   a chegada aos consultrios de um laser com disparos mais rpidos do que o laser usado atualmente. Com a nova tecnologia, a mdia de sesses necessrias para a remoo ser reduzida para trs. Alm disso, a aplicao  praticamente indolor. O equipamento aguarda aprovao do FDA, a agncia que controla remdios e alimentos nos Estados Unidos e deve estar disponvel em dois anos. At l, quem quiser remover a tatuagem ter de fazer como Adriana Ribeiro, a gacha que maquiou os ombros para se casar no ano passado. Eu choro no dia do laser, ela diz. Passo mal. Hoje em dia, desencorajo quem me diz que vai fazer tatuagem. 

POR QUE  UM SOFRIMENTO E NUNCA FICA PERFEITA
 A remoo da tatuagem  feita com raio laser, do tipo usado para combater manchas solares e senis
 O laser age explodindo os pigmentos da tinta que repousam na derme, o que causa dor, bolhas e queimaduras. Por isso,  preciso haver intervalos de um ms entre as sesses
 O processo  eficaz apenas nos pigmentos escuros. Tatuagens em cores como amarelo e vermelho podem ser parcialmente clareadas

Fonte: Adilson Costa, professor de dermatologia da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas

QUANTO CUSTA A REMOO
Tamanho da tatuagem (em centmetros): 5
Nmero de sesses: 8 a 12
Preo por sesso (em reais): 260

Tamanho da tatuagem (em centmetros): 15
Nmero de sesses: 12 a 20
Preo por sesso (em reais): 440

Tamanho da tatuagem (em centmetros): 25
Nmero de sesses: 20 a 30
Preo por sesso (em reais): 700



10. SOCIEDADE  A VIDA IMITA A FICO
A exemplo do Tufo de Avenida Brasil, muitos cariocas que enriqueceram nos negcios no cogitam sair da periferia onde foram criados e hoje so tratados como reis.
ALESSANDRA MEDINA

     Nascer no subrbio, dar duro, escalar o alfabeto das classes sociais, enriquecer, cercar-se de luxos... e continuar no subrbio. Parece coisa de fico, de gente de novela como Tufo, o ex-jogador de futebol de Avenida Brasil que no arreda p do fictcio bairro do Divino, mas a opo pela periferia  mais comum do que se pensa entre aqueles que ascenderam ao topo. Na vida real dos subrbios e das cidades da Baixada Fluminense, com suas casas inacabadas, ruas malcuidadas e comrcio popular, so frequentes os casos de bem-sucedidos empreendedores que preferem permanecer onde sempre estiveram, s que com muito mais conforto e certo gosto pela ostentao. Ao contrrio do jogador da novela que ficou milionrio em pouco tempo, os Tufes de verdade foram criados em famlias pobres, no fizeram faculdade, montaram um negcio prprio, prosperaram de forma extraordinria e agora querem usufruir, com a avidez tpica dos recm-chegados ao andar de cima, casares, carros importados, joias e roupas de grife  claro, sem abdicar das conversas no botequim da esquina ou do churrasquinho com pagode nos fins de semana. No seu pedao, so tratados como membros da realeza. No tem lugar nessas bandas da cidade em que no encontre algum amigo. Aqui sou mais conhecido do que nota de 2 reais, brinca o empresrio Genilton Guerra, que por nada neste mundo larga Queimados, na regio metropolitana do Rio.
     Nascido e criado ali, Guerra, de 51 anos, sempre morou no mesmo ponto s que, antes, numa casinha em terreno de 200 metros quadrados; hoje, numa casona que, s ela, ocupa 740 metros quadrados de um terreno quatro vezes maior. Para Queimados ser o paraso, s falta mesmo uma praia, exagera, com o mesmo ufanismo em relao s razes que permeia o discurso das outras pessoas que ilustram estas pginas. Filho de militar e dona de casa, Guerra conta que, quando era criana, protegia os sapatos com sacolas de supermercado para ir  escola, de tanta lama que havia na rua (e ainda h). Graas ao pendor para consertar tudo em casa e a um curso de eletrnica feito depois de terminar o ensino mdio, ele inventou e patenteou um sistema antifurto de energia eltrica que foi adotado por diversas fornecedoras. A inveno fez dele um homem rico. A primeira providncia foi ampliar seus domnios: a tufaniana manso atual conta com sala de cinema e academia, entre outros luxos. Embora no tire do pescoo o pesado cordo de ouro com medalha de So Jorge, exiba uma coleo de braceletes que lhe tomam o brao inteiro e se locomova em um BMW, Guerra no dispensa o ritual dos tempos em que contava cada centavo. Aos domingos, pe bermuda e chinelos e se demora na cerveja com os amigos. As vezes, muda de ares  tem um apartamento na Barra da Tijuca e uma casa de praia no condomnio Portogalo, em Angra dos Reis, com lancha de 32 ps (para pescar) atracada.
     Para quem ficou rico na periferia,  complicado o momento de pesar os prs e os contras de permanecer na vizinhana que conhece e onde  conhecido (ainda que ela seja um lugar abafado e sem beleza) ou de se mudar para um condomnio de frente para o mar onde no est entrosado nem com as pessoas nem com as regras sociais. O empresrio Cecio Paixo, 63 anos, bem que tentou. H cinco anos, Cecio trocou Nova Iguau pela Barra da Tijuca, destino natural do carioca ou fluminense que subiu na vida. Aguentou um ano. Nova Iguau ganha em tudo. Tem bar com msica ao vivo, feijoada a preo bom, botequins de primeira, diz o popular Cecinho. Dono de uma fbrica de alumnio, ele costuma ser parado na rua para posar para fotos e dar e receber beijos  isso quando no est dirigindo seu Camaro novinho de 200.000 reais. Tirando a breve passagem pela Barra da Tijuca, o empresrio completou 40 anos com a famlia na mesma casa de dois andares, que foi se tornando cada vez mais confortvel e equipada, no melhor bairro de Nova Iguau, o K11. Se quer variar o cenrio, parte para a casa de praia em Ibicu, distrito de Mangaratiba, da qual muito se orgulha:  em estilo medieval, feita de pedra, com torre e tudo.
     Tanto Guerra quanto Cecinho despontaram para os negcios na dcada de 90, antes da virada social que, nos ltimos anos, alou milhes de brasileiros  classe C. Ambos concordam que a mudana fez do subrbio um lugar melhor  ainda melhor. Os moradores agora pagam as contas direitinho. No querem mais instalar gatos para roubar eletricidade. Com isso, as companhias de luz investem mais em equipamentos, o que  bom para o meu negcio, festeja Guerra. Dados recentes do IBGE mostram que a regio metropolitana do Rio de Janeiro concentra a maior renda mdia e o maior poder de compra de trabalhadores em todo o pas, ambos indicadores em trajetria ascendente. Essa regio tem apresentado avano na renda e um intenso movimento de formalizao de empregos, principalmente em consequncia dos investimentos ligados  explorao de petrleo e gs, observa o economista Mauro Osrio, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dono de uma empresa de transporte, logstica e armazenamento instalada bem ao lado da Rodovia Presidente Dutra, o empresrio Marcelo Marques, 40 anos, acompanhou passo a passo a transformao econmica da rea onde mora.  uma alegria ver as casinhas pequenas e precrias, s vezes de um cmodo s, sendo arrumadas e ampliadas, diz ele, que jamais cogitou deixar o imvel que divide com a me em Nilpolis. Preciso de pouco para ser feliz: a vista da minha varanda, um copo de usque e o meu charuto, enumera o empresrio. E um microfone, pois ele adora frequentar karaoks, tem o seu prprio em casa e j gravou um CD para presentear os amigos. Marques deu duro para chegar aonde est e agora usufrui tudo o que conquistou. Vaidosssimo, tem queda assumida por relgios caros e roupas Armani (que a loja manda  sua casa para ele experimentar). Eu me espelho muito no Eike Batista. Compro e leio tudo o que sai sobre ele, conta.
     O time dos filhos prdigos que hoje vivem no subrbio tem at,  claro, ex-jogadores de futebol. Emerson Moiss Costa, 40 anos, ficou conhecido no Flamengo no incio dos anos 1990, vestiu a camisa de vrios times europeus e, na hora da aposentadoria, em 2008, voltou para a Baixada Fluminense, onde nasceu e se criou. Para mim, no tem sentido viver em outro lugar. Minha famlia inteira est aqui, justifica-se. Adaptar-se  Europa (jogou em Portugal, Inglaterra, Espanha, Esccia e Grcia), admite, foi difcil. A cada mudana, contratava um professor para ajudar a famlia a aprender o idioma e conhecer um pouco da cultura local. O pas que mais nos marcou foi a Grcia. A minha mulher  evanglica e sonhava em conhecer os lugares que o apstolo Paulo cita na Bblia, lembra. Emerson se sente mais feliz agora, morando com a mulher, Andrea Valria, os dois filhos e a sogra em um apartamento de 300 metros quadrados no centro de Nova Iguau. O nico problema  a picape de 180.000 reais que no cabe na garagem e fica estacionada na rua. Tambm ele, vencido pela insistncia de amigos como os ex-jogadores Edmundo e Djalminha, comprou recentemente um apartamento de trs quartos no Recreio dos Bandeirantes para passar os fins de semana  beira-mar. Vai com um p atrs. J ouvi dizer que os moradores de l so metidos. Mas comigo no tiram onda. At porque sei que a maioria de l veio mesmo foi da Baixada. Oi, oi. oi.


11. PR-SAL  QUER EMPREGO E SALRIO ALTO? AQUI TEM
Disputados a tapa nas faculdades, os engenheiros so a elite da fora de trabalho que vai preencher a imensido de vagas abertas na indstria do petrleo. O Brasil s vai conseguir extrair a riqueza do fundo do mar se investir na capacitao deles.
GABRIELE JIMENEZ

     Passar catorze dias seguidos isolado em alto-mar, a 150 quilmetros de terra firme, dormindo em quarto coletivo e concentrado em tarefas complexas e de alto risco. Parece exaustivo, e . Mesmo assim, enfurnar-se numa plataforma de petrleo, onde tudo isso acontece, virou o emprego dos sonhos para um crescente grupo de jovens que buscam aventura, novidade e, acima de tudo, uma oportunidade rara de rpida ascenso profissional. Os engenheiros de petrleo so a elite dessa fora de trabalho a quem cabe converter em riqueza o potencial do pr-sal. Disputados ainda na universidade pelas empresas petrolferas, eles esto encarregados de tarefas cruciais, como interpretar dados geolgicos, calcular o tamanho de reservas e operar e manter equipamentos de perfurao.  uma presso psicolgica intensa, mas vale. O petrleo me permitiu crescer em um piscar de olhos. J consegui comprar uma boa casa e o carro que eu queria, comemora o engenheiro Vinicios Azevedo, 27 anos, funcionrio de uma empresa americana que testa poos operados pela Petrobras. Formado em engenharia eletrnica, Azevedo viu uma amiga conseguir um bom emprego na indstria petrolfera e resolveu se especializar na rea. No mestrado, recebi cinco propostas de trabalho em um ano, todas de alto nvel, mas as recusei apostando que encontraria coisa ainda melhor depois de concluir o curso, lembra. Hoje, ele ganha cerca de 10.000 reais fixos mais um adicional a cada perodo que passa em alto-mar. A plataforma  minha segunda casa. As mais antigas nem internet tm, mas as novas so muito confortveis. Eu me sinto num cruzeiro, brinca.
     Azevedo est na linha de frente de uma fora de trabalho que, a se concretizarem as promessas do pr-sal, atingir propores monumentais. Segundo estimativa da Organizao Nacional da Indstria do Petrleo (Onip), quando a explorao dos reservatrios estiver no auge  o que se traduziria em 30% de todo o leo no Brasil , tero sido criados, direta ou indiretamente, 2 milhes de novos empregos, ou 680 por dia pelos prximos oito anos. Num prazo mais imediato, de trs anos, a indstria ter de treinar 212.000 pessoas, ou 70.000 por ano. Uma pesquisa da Federao das Indstrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) sobre a demanda de profissionais nas 400 maiores empresas do pas mostra que os mais solicitados, de longe, sero justamente os que tm formao em engenharia de petrleo. O salrio inicial mdio dessa turma j  de 9000 reais (um clnico geral comea com 6000 reais e um advogado tributrio, com 2800). Em cargos mais altos, a mdia sobe para 15.000 reais, 35% mais do que se oferecia no ano passado. Segundo a empresa de recrutamento Catho, nenhuma outra carreira da engenharia experimentou tamanha evoluo. Dentro da engenharia de petrleo, h algumas funes especficas para as quais  mais difcil achar gente competente do que topar com uma mosca branca, diz Paulo Sergio Alonso, secretrio executivo do principal programa de formao de mo de obra para a indstria petrolfera, o Prominp.
     Colocado dessa forma, o mercado de trabalho do pr-sal soa como a terra prometida da mo de obra nacional. Para isso, s falta as expectativas se confirmarem, e nessa ressalva mora o perigo de uma decepo de propores igualmente monumentais. Por enquanto, a riqueza guardada nas profundezas do oceano  um projeto que engatinha. Empresas que se prepararam para investir e ganhar dinheiro a curto e mdio prazo esto revendo suas projees, por falta de resultados. Mesmo a guerra por bons profissionais  movida nem tanto por uma saudvel competio entre vrios escritrios e muito mais pela agressiva poltica de contrataes da Petrobras, que desde 2001 aprovou em concurso 37.000 funcionrios, fazendo escassear a mo de obra. Os analistas mais cautelosos tm sempre  mo o exemplo da indstria naval, que na dcada de 70, a do Brasil Grande, foi estimulada pelo governo a implantar grandes estaleiros, que contrataram aos milhares. As encomendas no se concretizaram, os investimentos minguaram, os empregados foram sendo demitidos e, quinze anos depois, quase todos os estaleiros fecharam. A demanda interna foi suprida por estaleiros internacionais, e os nacionais entraram em processo irreversvel de falncia, diz Segen Estefen, professor de ps-graduao e pesquisa em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
     Supondo-se que a lio tenha sido aprendida e que a explorao do pr-sal corresponda a seu fabuloso potencial, as possibilidades de emprego so, de fato, de tirar o flego de qualquer jovem ambicioso. O capixaba Bruno Teixeira Paiva, de 27 anos, foi contratado por uma fornecedora da Petrobras em 2008, quando ainda cursava o ltimo ano de engenharia de petrleo. Em quatro anos, mudou de emprego uma vez e seu salrio passou de 5000 para 8000 reais. Sou sondado por outras empresas o tempo todo. No faltam oportunidades no mercado para algum com a minha formao, entusiasma-se. Existem apenas 35 cursos de engenharia de petrleo no Brasil (os de engenharia civil so 290), e o caminho dos formandos  quase inevitavelmente a Petrobras. Seu ritmo agressivo de contrataes dificulta a vida de empresas privadas como a multinacional inglesa BG, que passou o ltimo ano inteiro procurando um engenheiro com experincia em perfurao e, no fim, rendeu-se  escassez e importou um profissional da Europa, a um custo muito mais alto. No total, s no primeiro semestre deste ano, 8200 estrangeiros foram trazidos para c para trabalhar em embarcaes ou plataformas petrolferas.
     Na ponta menos especializada do mercado de trabalho em petrleo, a escassez no  s de pessoal, mas principalmente de preparo bsico. Boa parte dos candidatos a vagas em nossos cursos no tinha sequer conhecimentos mnimos de matemtica, portugus nem raciocnio lgico, diz Alonso, do Prominp. Criamos um projeto de reforo escolar e agora j existe at fila de espera para algumas turmas. O carioca Aureliano Joo de Oliveira, 40 anos, segurana de um prdio na Zona Sul do Rio de Janeiro durante o dia, dorme apenas trs horas por noite  o resto, ele passa nas aulas de solda do corujo, curso do Senai que funciona das 22 s 2 horas (o seguinte, das 3 s 6 horas,  o galo da madrugada). Com uma vaga no setor do petrleo, posso ganhar mais do que o dobro dos 900 reais que recebo hoje, diz. Se caminhar como previsto, a explorao do pr-sal vai demandar a instalao na costa brasileira de 33 sondas, vinte plataformas e 49 navios, 60% dos quais tm de ter sido produzidos aqui. A aposta  alta, e os riscos idem. Entre todas as barreiras que podem atrasar o desenvolvimento do pr-sal, a da mo de obra  uma das mais perigosas, porque no h soluo simples nem de curto prazo, observa Norman Gall, diretor executivo do Instituto Fernand Braudel, autor de um substancioso estudo sobre o fenmeno. Se no houver um esforo macio e contnuo de reforo da educao bsica, a riqueza vai continuar no subsolo.


12. ESTILO  OL, MULHER REDEIRA
Sem cara de traje tpico: os delicados modelos de renda artesanal feitos por Martha Medeiros conciliam a riqueza do trabalho manual e um elegante ar contemporneo.
DOLORES OROSCO

     Tirar a aura rstica dos trabalhos artesanais e transform-los em produtos requintados  o sonho de todos que lidam com artefatos manuais de origem popular. Poucos conseguem e quase ningum chegou ao nvel atingido por Martha Medeiros, com as elaboradas roupas de renda que produz. Seu encanto com o trabalho das rendeiras tradicionais e o olhar treinado nas boas tcnicas de costura vm das frias passadas com a av, no interior de Alagoas. Bem-posta na vida, a av exigia que a pequena Martha fizesse os vestidinhos de suas bonecas Susi com elegantes bolsos embutidos. Calas compridas, s com barra italiana. Dessa poca Martha tambm traz a lembrana cheia de afeto das toalhas de renda que enfeitavam as mesas das casas da regio. Martha, hoje com 49 anos, uniu as duas referncias infantis de maneira profissional em suas roupas nicas, de uma brasilidade imediatamente reconhecida, mas sem nem uma gota de traje tpico, usadas principalmente por noivas de famlias tradicionais do Nordeste, por atrizes antenadas com as novidades e pelas cultas, que so as que gostam de artesanato, segundo sua prpria definio. Como so viajadas, sabem que meus modelos no tm cara de feirinha, especifica.
     As rendas utilizadas nas roupas da marca que leva seu nome so produzidas por 250 costureiras de cooperativas de Alagoas, da Paraba e de Pernambuco. Quando comeou a trabalhar com elas, h catorze anos, Martha enfrentou resistncias naturais. Elas no gostaram quando falei para no misturar cores nos vestidos, como estavam acostumadas a fazer nas toalhinhas. Quando pedi rendas inteiramente pretas, disseram que dava m sorte fazer roupa de viva, conta Martha. Hoje, ela produz em mdia poucos e caros vinte vestidos por ms. So confeccionados a partir de pedaos de renda, de 1 metro por 38 centmetros, dos tipos renascena, de bilro e fil, que as rendeiras enviam a atelis que a estilista mantm em Macei e em So Paulo. As faixas rendadas so lavadas, engomadas e guardadas em caixas brancas, de onde sairo para ser transformadas em corpetes, saias e vestidos feitos pelas costureiras que seguem os croquis de Martha.
     Os vestidos de noiva, habitualmente a roupa pela qual as clientes se dispem a pagar mais, ficam no topo das encomendas. Demoram entre oito meses e um ano e meio para ficar prontos. O mais caro, um modelo chamado Afine, custa 30.000 reais. A noiva pode escolher entre oito desenhos de renda renascena patenteados por Martha. As costureiras passam lcool em gel nas mos a cada quinze minutos para manter a alvura da renda. O bom de fazer um vestido comigo  que a noiva pode engordar durante o processo. Como os pedaos so costurados um a um, se as costas alargarem,  s aplicar mais fileiras, diz Martha, ela mesma em eterna disputa com a balana. Com 1,58 metro e nem me pergunte quantos quilos, ela gosta de almoar mingau pitinga  uma papa de mandioca coberta com frutos do mar  com colher, feito ndio. Ao longo do dia, belisca empadinhas, pastis e biscoitos colocados em sistema de rodzio em sua mesa.
     Fazer renda  uma das mais antigas ocupaes femininas, atividade que se adaptou ao processo de produo industrial, com teares, e no momento, como praticamente tudo o mais que existe no mundo, enfrenta a imbatvel concorrncia chinesa. O mais recente e espetacular impulso ao delicado material foi o vestido de casamento de Kate Middleton com o prncipe William, feito por rendeiras da Irlanda e da tradicional marca francesa Sophie Hallette, uma das fbricas mais amigas do mundo. Martha Medeiros tem dois vestidos expostos em um museu dedicado  renda, em Calais, na Frana. A diretora do museu, Shazia Boucher, elogia as diferentes tcnicas de rendas feitas a mo e os modelos em si. So peas de alta-costura, bem cortadas e com ateno minuciosa no acabamento, diz Shazia. Recentemente, Martha passou a vender suas criaes na Bluebird Shop, em Londres, e na Bergdorf Goodman, em Nova York.
     Uma das mais assduas clientes da modista  a advogada alagoana Maria Fernanda Vilela, que conta uma histria curiosa: Fui a um coquetel em Milo no qual estava Giorgio Armani. Ao me ver com um terno dele e uma blusa de Martha, de fil, por baixo, ele disse: Che bello!. A atriz Flvia Alessandra combinou com Martha, por telefone, como seria seu vestido vermelho, com o leve babado na cintura que est na moda. Adorei a saia peplum porque ela  removvel, diz Flvia. Para a estreia de Gabriela, Juliana Paes queria algo brejeiro e moderno e ganhou um sonho em forma de roupa. Daniella Cicarelli tambm j teve seu vestido exclusivo, com 28 camadas de renda renascena. Giovanna Antonelli usou um chique modelo azul num casamento, um dos vrios de Martha que ela tem. Deixam o corpo lindo. diz. Ol.
